
sexta-feira, 11 de setembro de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009
Para uma interpretação de A ONDA - II
A Onda define uma situação simbólica que pressupõe domínio, altivez face à maré; é a afirmação da sumptuosidade do mar. Transpondo-se para o ser humano pode tomar-se num sentido vitalista e de afirmação do super-homem nietzscheano. No caso concreto da fita, a afirmação individual aparece-nos a partir de uma roupagem de autocracia e, simultaneamente, imbuída de um poder carismático, personificados no professor e de um poder legal, em Karo. São, penso eu, as personagens mais vincadas e, por isso, o filme gravita à volta das suas características. Contudo, há uma diferença: a personagem do professor é fabricada e a personagem de Karon é autêntica e, acima de tudo, racional.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Para uma interpretação de A ONDA - I
A Onda – Uma leitura à volta do poder
Perante a solicitação do professor Wenger sobre um exemplo de Autocracia, a turma respondeu num tom de inevitabilidade: o Nazismo. O tempo da inscrição histórica é facilmente esquecido quando a vulgaridade é a tónica do ensino. A soberba do presente e a respectiva projecção do futuro fazem esquecer o efeito pernicioso do poder quando não existe uma educação para o «mundo da vida» (entendido como raízes). Daí que o hiato entre a ordem e o caos seja muito ténue.
A transição da esfera privada (família) para a esfera pública (escola) é apresentada como possível condicionante das decisões tomadas pelos alunos. Para tal é dada especial atenção à esfera privada das principais personagens. Os universos são muito semelhantes. Todos apresentam linearidade entre os dois domínios, excepto Stolte cuja dinâmica privado-público é profundamente distinta. Desde o início, Stolte toma as posições mais radicais e bélicas – cujas razões mais à frente abordaremos -,, surpreendendo o professor o que demonstra o poder de atracção que A Onda exerce sobre os alunos que mais sujeitos estão à necessidade de reconhecimento.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Poder IV
A partir da descrição feita do chefe dos Nambiquaras na obra de Levi Strauss, parece claro a existência de uma liderança legitimada pela sua acção: na resolução dos problemas, na antecipação de situações, dinamismo na escolha de itinerários, em suma, o chefe é o que expõe, criando uma identidade grupal. Max Weber define bem este poder: «Probabilidade de impor a vontade a outrem.» (Max Weber, Três Tipos de Poder Legítimo, trad. Artur Mourão, www.lusosofia.net. Pág.3).
O Poder Legal caracteriza-se por uma autoridade possuidora de dois elementos fundamentais: heteronomia e heterocefalia. É resultado de uma vontade exterior ao indivíduo e, por isso, é formal. A regra é o seu leit motiv e o seu ideal é ordenar de acordo com objectivos pré-definidos. O objecto é burocrático, encontrando-se materializado, segundo Weber, nos modernos estados e nas empresas capitalistas (Max weber, op. cit. Pág. 4).
O Poder Tradicional existe para além da legalidade, legitimando-se na tradição dando corpo à máxima «valendo desde sempre» (Max Weber, op.cit , pág. 5). A dominação patriarcal é o seu máximo expoente e possui raízes numa subordinação inevitável face ao poder tradicional. Cria-se, por isso, uma rede de dependências, exercendo o governo por meio da aversão, da emoção, do agrado e, acima de tudo, dos favores pessoais. Weber apresenta dois tipos de poder tradicional: o poder segundo ordens e o poder puramente patriarcal (Weber, op cit, pág. 5 e ss). O primeiro está vinculado à estrutura patriarcal (clã, chefe de família…), é o tipo mais puro do poder tradicional; o segundo representa mais um nível de administração mas cuja servidão lhe está intimamente ligada. A posse é traduzível por este tipo de poder em que os meios de administração são inteiramente desenvolvidos e legitimados pelo senhor, diferenciando-se, por isso, do poder legal pela sua forma intrínseca de deliberação de normas.
Finalmente, o poder carismático vai corresponder com uma ruptura do poder tradicional. Reconhece-se no líder a capacidade para desviar as relações habituais. Caracteriza-se por uma dedicação especial, pelos seus discursos, revelações mágicas, pela postura heróica, a uma pessoa. Os seus tipos mais puros são a autoridade do profeta, o herói guerreiro e o demagogo. Este último é uma invenção dos estados ocidentais contemporâneos; os outros dois correspondem a mecanismos mais ancestrais, embora actualizantes, próprios de uma tradição judaico-cristã. O herói corresponde ao Herzog, ao guerreiro carismático com o seu séquito (Weber, op cit, pág. 10 e ss).
quarta-feira, 22 de julho de 2009
domingo, 19 de julho de 2009
sexta-feira, 17 de julho de 2009
PoderIII
Levi strauss: A escrita e o poder.
Em Tristes Trópicos, Levi Strauss, através da sua epopeia junto dos Nambiquaras apresenta a situação da escrita face à cultura. Numa perspectiva empírica somos levados a considerar a escrita algo como concernente à expansividade intelectual em detrimento do carácter sociológico. Ora, Strauss demonstra a predominância deste face ao intelectualismo. O chefe, aquando da apresentação do lápis e do papel, facilmente depreendeu a utilidade da escrita embora não tenha exercido qualquer intenção significativa. Embora «o seu símbolo fosse utilizado, a realidade continuava estranha» (Levi Strauss, Tristes Trópicos, capítulo XXVII). Facilmente se constatou que a utilização de «traços» por parte do chefe serviu, acima de tudo, para a efectivação do poder. Strauss descreve a cena de tal forma que nos transmite uma imagem do que seria a representação do chefe face à escrita e a consequente admiração de que era alvo pelos seus súbditos. Esta descrição levou Strauss a demonstrar, através de exemplos históricos, a função primordial da escrita: manutenção do poder. Poder-se-ia objectar esta ideia a partir da constatação da importância da escrita no desenvolvimento científico dos séculos XIX e XX. Contudo, Strauss diz que a escrita é condição necessária mas não suficiente (Levi Strauss, op.cit), na medida em que o período com maior desenvolvimento humano – neolítico – não coincidiu com a descoberta da escrita. Desta forma, a escrita sugere um rosto de manifestação imperial e manutenção de territórios. Inclusive, a luta contra o analfabetismo possuiu uma intenção que visava, acima de tudo, o reforço e o controlo do poder. Porquê? Por que «ninguém pode ignorar a lei» (Levi Strauss, op.cit).
terça-feira, 7 de julho de 2009
Poder II
Uma particularidade muito presente nos textos bíblicos é a adequação do bem face ao poder. Na leitura da Epístola aos Romanos, S. Paulo evidencia a necessidade de um bom cristão de se submeter ao poder. O próprio Santo Agostinho nas Confissões identifica o pecado original com o pecado da desobediência. Obviamente que S.Paulo, além de ter em mente fundamentar uma convivência pacífica com Roma, sabia que Jesus Cristo era o alfa e o ómega, o princípio e o fim (ver Álvaro Pais, Espelho dos Reis); o poder temporal, humano, está ao serviço das vicissitudes pecaminosas do homem, o que não significa que Deus não esteja lá presente, pelo menos mediatamente, por que imediatamente estão os seus representantes, o que, no caso de S. Paulo, se concretizava. Portanto, «submeta-se cada qual às autoridades constituídas. Pois não há autoridade que não tenha sido constituída por Deus e as que existem foram estabelecidas por Ele.» (São Paulo, «Epístola aos Romanos», in Bíblia Sagrada, Verbo Lisboa, 1982, pág. 1291). O horizonte desta postura pode ser encontrado num conceito muito caro à tradição cristã em geral e católica em particular: a Unidade como contraponto à diversidade, esta sim, pode protagonizar a pulverização e o pecado, a divisão e a desordem, o primado da matéria sobre o espírito.
Poder I
Será possível definir poder? Wittegenstein traz-nos uma transmutação significativa quanto aos conceitos, entendidos como noções. Quando definimos algum conceito é difícil encontrar pontos de intercepção, apesar de dizermos o conceito. Por outras palavras, dizemos que o criket ou o futebol, a natação ou o xadrez são desportos apesar de se encontrar entre eles aspectos diferenciadores: o carácter competitivo, as noções de perder e ganhar apresentam nuances particulares. Wittegenstein concluiu, então, que o que existe é «uma rede complicada de parecenças que se cruzam e sobrepõem umas às outras. Parecenças de conjunto e de pormenor» (Wittengenstein, Investigações Filosóficas, F.C.G., Lisboa 1997). A forma encontrada para nomear esta ideia foi o termo «família», na medida em que os membros de uma família apresentam particularidades individuais e porque percorre nesse conjunto uma transversalidade de aspectos que determinam o significado, o nome. Consequentemente, quando falamos em Poder não devemos descurar a intercepção de uma multiplicidade de aspectos que se cruzam e promovem uma certa identidade.
domingo, 5 de julho de 2009
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Política
1- Falência do modelo democrático tradicional.
- Agregação de preferências e negociação de interesses individuais.
- A base deste acordo está no símile do mercado em que reduz o debate a uma panóplia que faz confluir na avaliação entre as partes a congruência de interesses privados.
2- Características da democracia deliberativa
-Pressupostos: A) a justificação das propostas apresentadas; B) estas razões devem ser acessíveis a todos os cidadãos interessados (que possa ser entendível pelos cidadãos); C) é um processo dinâmico (o sua justificação não é eterna); D) visa tomar uma decisão que seja vinculativa num certo período de tempo.
-Objectivos:
A) Visa a melhoria da qualidade das decisões colectivas.
B) Almeja o escopo de uma cidadania participativa.
C) Projecta-se na busca colectiva da melhor proposta para todos.
3- Virtualidades do modelo deliberativo:
- Reforça as orientações das deliberações para o interesse geral em detrimento dos interesses privados.
- Possibilita o desenvolvimento cognitivo e práxico.
domingo, 28 de junho de 2009
Política
domingo, 14 de junho de 2009
Política
domingo, 24 de maio de 2009
Ler Filosofia
domingo, 17 de maio de 2009
segunda-feira, 4 de maio de 2009
sábado, 2 de maio de 2009
O Corpo. Um caso.
domingo, 26 de abril de 2009
segunda-feira, 13 de abril de 2009
A angústia
segunda-feira, 23 de março de 2009
Carnaval - ponto de vista filosófico-humorístico-decadente
Tudo na vida deve ser encetado num momento próprio. Como estou há três anos na Escola Secundária Madeira Torres, o primeiro ano foi de visualização, apuramento dos sentidos, primeiras impressões, no sentido humeano do termo. Impressões simples ou simples impressões, não sei, o que sei é que enveredei por uma postura de distanciamento e, simultaneamente, coloquei o véu de ignorância. desloquei-me pela escola, sujeitei-me à audição de comentários comuns, visualizei, com um exigível distanciamento, as meias de licra das (dos?) matrafonas - convenhamos que, para um gajo do norte, não é pêra doce - escutei com atenção os rituais, as palavras, os ritmos que as coisas iam tomando.
No segundo ano já estive num patamar diferente. Fotógrafo (mau), tomei contacto com os suores dos foliões e ganhei coragem para colocar uma peruca. Nunca havia usado uma peruca... Quando a coloquei ocorreu-me de imediato a ideia de que havia perdido a minha masculinidade... Era loira. Comprei a uma senhora que tinha montado a banca na escola. Quando a vi, o nervosismo apoderou-se de mim. Aproximei-me e disse: «que...quer...quero....co...comprar a peruca. A senhora, experiente nestas andanças, esboçou um sorriso de benevolência. Não levei a mal. De facto parecia um jovem que está próximo de conhecer o bom da vida, ontologicamente falando.
Este ano... fica para o próximo post.
sexta-feira, 20 de março de 2009
Um professor de cardiologia defende que a aspirina ajuda a prevenir enfartes.
Um seu aluno mais atento pergunta: «porquê?»
O professor responde: «porque diminui a formação de ateromas nas paredes vasculares».
E o aluno torna a perguntar: «porquê?»
O professor responde: «porque como anti-inflamatório ela diminui as inflamações das paredes vasculares.»Assim, tanto o professor como aluno ficaram satisfeitos com a resposta. Esta «condição de satisfação» é apoiada pelo coenrentismo - as várias proposições são justificadas pela consistência de outras crenças, construindo-se uma rede - e pela noção de jogos de linguagem - pela presença de signos linguísticos comuns a uma determinada família de falantes. Um aluno, surpreendentemente mais atento a estas lides, perguntou-me - «qual o interesse então da filosofia». Engoli em seco, ao mesmo tempo que respondia: - estar atento à linguagem, procurando o rigor, desmontando discursos, solucionando problemas... O aluno retorquiu, dizendo: «solucionando problemas?». respondi dizendo que os problemas do ser humano são...linguísticos.
PS: o diálogo, infelizmente, é pura ficção.
terça-feira, 17 de março de 2009
O Mestre
quarta-feira, 11 de março de 2009
terça-feira, 3 de março de 2009
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Charles Darwin
A destruição de dogmas
1- O dogma antropocêntrico, onde o Homem
ocupa um lugar central de todo o universo;
2- O dogma antropomórfico, remete-nos para a
divinização do Homem, como sendo criado à
imagem de Deus;
3- O dogma antropolátrico, que consiste na crença da imortalidade da alma.
Também o homem, com os seus estados mentais, é oriundo dessa base comum, com a diferença de se ter adaptado mais rapidamente às dificuldades do meio, desenvolvendo o sistema nervoso central, acrescentando a si a produção imaterial e intelectual. Infere-se daqui a redutibilidade do homem em relação ao cosmos, por possuir uma evolução fundamentada num ponto de vista fisiológico oriunda da génese comum com a totalidade. «O nosso corpo humano - diz Haeckel - formou-se lenta e gradualmente através de uma longa série de vertebrados ancestrais; e o mesmo aconteceu com a nossa alma que, sendo uma função do nosso cérebro, se desenvolveu gradativamente em correlação com este órgão.»
Na Filosofia encontramos em forma de embrião a ideia de evolução:
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (Estugarda, 27 de Agosto de 1770 — Berlim, 14 de Novembro de 1831)
Filósofo de imprescindível leitura que marcou de forma indelével a nossa civilização, Hegel tornou-se uma referência para quem se debruça sobre a problemática da evolução.
A frase que mais o identifica é: o que é real é racional, o que é racional é real
A realidade funciona da mesma forma que a lógica, modo de ser próprio da espírito.
Qual o modo como a lógica funciona: através da dialéctica? Tese, antítese e síntese.
Qual o modo como funciona a realidade? Tese, antítese e síntese.
Hegel com um sentido arguto, descobre que a história, a natureza, o pensamento possui um movimento contínuo de evolução até um FIM. Para se alcançar este fim, o processo desenrola-se num sentido de permanente confronte entre tese e antítese e finalmente um período de síntese. Para Hegel, toda a realidade se processa deste modo.
Exemplificando:
Na arte: Tese: Arte egípcia; Antítese: arte grega; síntese: arte romântica.
A Arte Romântica seria a arte por excelência, a última arte, a arte que melhor reencarnaria o espírito do mundo (weltgeist).
Karl Heinrich Marx (Tréveris, 5 de Maio de 1818 — Londres, 14 de Março de 1883)
Um dos filósofos que mais influenciou a história do século XX. Bem ou mal, as suas palavras ainda hoje são discutidas acaloradamente, sinal de que a sua obra foi de facto importante.
Independentemente de tudo o que pode ser dito, Marx foi um estatuto interpretador da história, descobrindo nela também uma evolução. A novidade que Marx apresenta é a influência da infra-estrutura (modos de produção, economia) na definição da superstrutura (ideias, política, valores…)
A história é um espelho desta dialéctica:
COMUNISMO
CAPITALISMO
FEUDALISMO
Sentido evolutivo da História
A passagem de uma ordem histórica para outra ordem histórica desenvolve-se a partir de uma revolução, resultante de uma luta de classes. A classe anteriormente dominante, não respondendo às necessidades do momento, é substituída por outra classe social. Também a história tem um fim, o advento do Comunismo.
A IDEIA DE EVOLUÇÃO NA FILOSOFIA E NA HISTÓRIA
Antero de Quental (Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, 18 de Abril de 1842 — 11 de Setembro de 1891)
Na obra Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX sintetiza de um modo inteligente o que de mais relevante aconteceu no pensamento durante o século XIX. Colocando nas suas preocupações intelectuais correntes como o Materialismo, Evolucionismo e Hegelianismo, Antero crê que a História da humanidade é uma forma de crescente autonomia até à liberdade moral da pessoa.
A ideia da evolução em TODA a realidade (O MONISMO)
Ernest Ernst Haeckel (1834-1919)
1. Momentos da Ontogénese traduzem as fases da Filogénese.
2. Através de metamorfoses sucessivas, os seres vivos mais complexos podem ser o resultado de outros mais simples.
3. As espécies vivas não são fixas e distintas (como se havia admitido com o fixismo de Lineu-Cuvier) mas variáveis e susceptíveis de transformação.
A irresistível paixão que arrasta Eduardo para a simpática Otília, Páris por Helena, e que triunfa de todos os obstáculos da razão e da moral é a mesma poderosa força de atracção inconsciente que, quando da fecundação dos ovos animais ou vegetais, impele o espermatozóide vivo a penetrar no óvulo; é ainda o mesmo movimento violento pelo qual dois átomos de hidrogénio e um átomo de oxigénio se unem para formar uma molécula de água»
Haeckel, Ernest; Os Enigmas do universo, trad. Jaime Filinto, 2ª edição, Lello & Irmão, Porto, 1926, p. 6.
Herbert Spencer (Derby, 27 de Abril de 1820 — Brighton, 8 de Dezembro de 1903)
Adopta o conceito de HEREDITARIEDADE
Encara o evolucionismo como critério supremo da Filosofia
E como instrumento unificador da Ciência.
Leis da evolução:
- Do menos coerente para o mais coerente;
- Passagem do homogéneo para o heterogéneo;
- Do indefinido indeterminado para o definido determinado.
Estas leis aplicam-se de igual forma ao biológico e ao social, com uma diferença:
- Na sociedade, em virtude da liberdade, existe uma maior dispersão das partes constituintes. Nos organismos vivos essa dispersão é menor.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
PARTE I – O CONTEXTO
Talvez seja interessante começar este texto com um aviso: nunca vivi o Carnaval de Torres, a não ser ouvindo de forma indiferenciada algumas notícias que, aqui e ali, pululavam no emaranhado de informação frívola dos mass media sobre esta época festiva. Por este motivo, comentar este evento poderá ser arriscado, pois tal vai depender, certamente, das reacções dos profissionais da folia.
Não imaginava que o Carnaval fosse tão intensamente vivido numa escola como é o caso da nossa. Contudo, o mais interessante não foi constatar essa intensidade, mas a própria seriedade com que todos nele participaram. Justifica-se esta seriedade?
Os momentos dionisíacos antecedem ou procedem de momentos de privação. Daí o surgimento do Carnaval (carne+vale). A carne, como bem exemplifica esta primeira imagem, é o momento de pecado que, levado ao limite, servirá para preparar o longo período de jejum (40 dias) que antecede a Páscoa. Por este motivo, todos estão com o Carnaval, até as pessoas mais insuspeitas (ou suspeitas?). O mais engraçado é que o poder, que George Orwell tenta ilustrar na obra 1984, não tem humor, como bem ilustra Sócrates na imagem . Esta sisudez, bem presente no pinoquínio nariz é um poder que priva o riso, oprime o humor e a inteligência. Sim, porque não há melhor forma de expressar inteligência do que saber rir, principalmente de nós mesmos.
A forma mais proeminente do exercício do poder é bem exemplificada na situação em que qualquer semelhança entre a realidade e a ficção é mera coincidência, isto é, qualquer semelhança entre o primeiro, o poder, e a ASAE é pura coincidência. Só ainda não entendi porque razão o robe fez parte da indumentária do folião da ASAE. Será com o intuito de convidar Sócrates para cenas mais íntimas, ou para ilustrar a intimidade do poder com os seus agentes? Bom, a resposta ficará para cada um. O Carnaval também serve para a orgia intelectual e imaginativa.
Há alguma relação entre o jejum e a paródia feita ao governo Sócrates e respectiva equipa educativa ministerial? Continua a haver coincidências intrigantes.
O que não se percebeu realmente foi as relações perigosas entre os poderes presentes naquele dia e naquela escola. Uns, objectos da paródia, os outros, em defesa dos oprimidos. O poder escolar foi de Zorro, acrescente-se que não era aquele Zorro do Banderas, eram muitas Zorras. O Zorro só por si era perigoso para os foliões, muitas Zorras é quase o fim do mundo.
PARTE II- OS ACONTECIMENTOS
O Madeiródromo estava a compor-se. Havia profissionalismo. Era fácil constatar a forma quase natural como as pessoas se cruzavam, se riam. Era como isto já fizesse parte da sua vida, era como o seu código genético possuísse a combinação Carnavalesca. Para quem de fora observasse, isto é, para quem se sentisse extraterrestre, usar uma peruca revestia-se de um acto de afirmação pessoal, quase transcendental, tamanha era a introversão. Se não os consegues vencer, junta-te a eles! Aprendi então lugares comuns destas situações, nomeadamente a linguagem: «estás toda boa!», «estás toda boa!», «estás toda boa». É verdade, foi a expressão mais comum. É verdade, sempre no feminino. Aprendi que, de facto, o Carnaval da Madeira Torres é um carnaval de afirmação do feminino, exceptuando as Zorras e as bandidas. O surgimento das designadas matrafonas era recorrente. Alguns ainda tentaram imprimir alguma testoterona, mas ficaram pela banda desenhada. Assistiu-se, inclusive, à tentativa de alguma masculinização, objectivo não conseguido, pois eram jeitosas (os). Mas qual foi a real intenção destas Metralhas? Antecipar o acontecimento no Carolina? Quiseram dizer que vamos todos presos? Há alguma relação entre o poder de Zorro e a desenvoltura mediática das Metralhas? É outro enigma que cabeças pensadoras facilmente encontrarão resposta. Eu, pessoalmente, não!
Além de tudo isto, houve uma representação que me impressionou.: a gravidez. Foi uma gravidez com alguma gravidade! O que se passa com estes homens???? Ainda por cima, impuseram à sua representação (?) o respectivo parto, sem dor, com as águas a provocarem uma pequena inundação.
A cada instante da exibição no Madeiródromo sentia-me cada vez mais familiarizado com a situação. Aos poucos ia aprendendo que eu é que estava mascarado, na medida em que não tinha qualquer máscara. Eu é que era ridículo, porque não ridicularizava. Eu é que fazia figura de parvo, porque não aparvalhava…
Os acontecimentos sucediam-se em catadupa, mas sempre com uma desorganização organizada. Esta foi, aliás, uma das principais características deste Carnaval. O aparente caos ocultava uma ordem estabelecida. Parecia que todos sabiam os seus papéis, quer nas formas espontâneas como se exibiam, quer nas coreografias ensaiadas.
Fora da coreografia estavam uns senhores com gravata. Inicialmente pensei que essa mesma gravata fazia parte da paródia. Ainda recorri a alguns préstimos. Contudo, perante tal absurdo, os meus interlocutores olhavam-me com desdém ou com o sentimento de pena. Resolvi então investigar. Depois de algumas diligências junto de alguns alunos descobri que…não sabiam. Esta inocência hormonal, onde os pseudo-problemas não existem, revelaram-me uma coisa óbvia: não se fazem certas perguntas! Imaginem só a expressão de um aluno quando se lhe pergunta sobre a existência de alguém com gravata! É neste tipo de situações que o professor perde discernimento e respeito por parte dos alunos. Mas também era Carnaval…
PARTE III – EPÍLOGO
Para mim este Carnaval foi uma autêntica sala de aula. Além de muitas outras coisas aprendi uma aspecto essencial: o Carnaval da Madeira Torres é um momento único. É único pela ambiência que cria à sua volta e único porque nega o humor sistemático e calculado, onde as pessoas são obrigadas à participação. Não, o Carnaval da Madeira Torres é um local de espontaneidade e, simultaneamente, de respeito pela diferença, contra o humor estereotipado, fabricado, onde todos são obrigados a participarem. Não será exagero dizer que, enquanto o humor está em decadência face à sua industrialização, na Madeira Torres o riso é mais autêntico: está no interior de cada um.
Será o último reduto da liberdade face ao Big Brother power?
Estou agora aqui a pensar como hei-de acabar este texto. Gostaria de ser diferente e não utilizar aqueles lugares comuns que fazem parte dos grandes discursos. O que de mais imaginativo me ocorre é propor para Titular os seguintes elementos: Dinis Martinho, Elsa Caldeira, Paula Paulo, Fátima Prates, Elsa Tomás. Em virtude da imaginação e do bom gosto evidenciado, os seguintes elementos não preencheram os requisitos mínimos do cinzentismo exigido para este título nobiliárquico: Luís Filipe Marques da Silva e Rosário Cadete. Para o ano há mais!